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Contatos mediados com o pensamento decolonial

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Um objetivo importante do Habit AL é promover intercâmbios com instituições, pesquisadores e com organizações populares tanto de outros países da América Latina como do Brasil, que atuam no setor da habitação social. Visamos a experiência específica na produção de habitação e equipamentos, comunitários e sociais; cujos eixos centrais sejam: autogestão; ajuda mútua, cultura cooperativa; modalidades de propriedade alternativas às vigentes no Brasil, especialmente a propriedade coletiva, ainda, o direito à cidade e o direito à habitação. No entanto, muito nos importam as referências, os conceitos e os métodos. Nesse caso, a aproximação foi com o decolonialismo.

O contato com pesquisadores e professores brasileiros de arquitetura e urbanismo, que atuam com temáticas latino-americanas, aconteceu no Simpósio Temático (Eixo 2) ENAMPUR V, Salvador, 2018. “Entre história e projeto: América Latina como horizonte de pesquisa”. A sessão foi proposta e coordenada por Marianna Boghosian Al Assal. Todas as comunicações interessaram, encantou-nos a comunicação “Exercício projetual como pesquisa e aproximação do território latino-americano” feita por Alvaro Puntoni e Fernando Viegas. Eles apresentaram a proposta da Escola da Cidade de oferecer um curso (Pós-Graduação Lato Sensu) de projeto no continente americano, cujo título é Geografia, Cidade e Arquitetura.

“O curso, desde de 2009, busca uma aproximação a culturas, realidades e produções artísticas e arquitetônicas relacionadas aos países da América. Uma maneira de mirar diretamente para a própria América sem a mediação europeia, como sempre se deu. Uma forma de estreitar laços, amizades e compartilhar angústias e desejos. Se trata de um curso de projeto anual dividido em quatro capítulos bimestrais, quatro países. Cada bimestre dividido em três ciclos. Para cada ciclo convida-se um professor estrangeiro do país em questão que organiza três aulas específicas. Além dos convidados externos, convocam-se demais professores brasileiros que possam contribuir complementarmente com os temas propostos.” (Puntoni; Viegas, 2018).

No entanto as comunicações da coordenadora, de Nilce Aravecchia-Botas e de Fernando Diniz deram indicativos de referências bibliográficas que ampliaram as nossas próprias. Marianna Boghosian Al Assal nos adverte sobre as especificidades, complexidades e implicações sobre o que é pensar em América Latina.

“Assim, pensar em América Latina é pensar e tencionar os seus usos e sentidos a partir de outros termos com que foi historicamente confrontada na disputa por hegemonia como matriz explicativa nos diversos campos do conhecimento: Pan-América, Ibero-América, Afro-América, América do Sul e tantos outros. Por isso, pensar em América Latina é atentar a todo tempo às perguntas: porque e do que se está falando?” (…) (AL ASSAL, 2018).

“De contornos incertos e existência questionável, que sentidos têm então a insistência na utilização do termo América Latina ou de suas lógicas como recorte possível para uma abordagem científica ou acadêmica? O primeiro ponto parece evidente a partir do já expostos: a recorrência e permanência histórica do termo. O segundo ponto, pode-se dizer que se depreende daí: a importância e significado reside justamente no esforço consciente de construção dessa unidade inalcançável e de seu papel permanente como figura do imaginário intelectual e político. Nas famosas palavras de Angel Rama de inícios da década de 1980, “América Latina continua sendo um projeto intelectual vanguardista que espera sua realização concreta” (RAMA apud GORELIK, 2005, p.113). Em terceiro lugar, cabe pensar sobre quais são as possibilidades que o enfrentamento dessa questão gera ao pesquisador como estratégia de abordagem.” (AL ASSAL, 2018).

O trabalho de Nilce Aravecchia-Botas, neste simpósio, nos traz de volta Marina Waisman e novas indicações sobre os estudos decoloniais. Nilce faz o esforço de realizar aproximações entre as teorias e a produção historiográfica de arquitetura e urbanismo na América Latina das últimas décadas com a formação do chamado “pensamento decolonial”. Ela entende “que esse esforço pode contribuir para que os avanços das pesquisas historiográficas estreitem seus vínculos com os estudos de história da arquitetura, à medida que enunciem uma reflexão epistemológica acerca da disciplina.” Ela assinala que:

“O pensamento decolonial toma corpo na década de 1990, incorporando os estudos pós-coloniais à tradição crítica urdida na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Nesse movimento, um grupo de intelectuais latino-americanos realiza um giro epistemológico com o propósito de renovar a crítica sociológica no continente”. Ela cita a obra de teóricos como o semiótico Walter Mignolo, o filósofo Henrique Dussel, o sociólogo Ramón Grosfoguel e o também sociólogo Aníbal Quijano:

“(…) esse procedente da própria Cepal, tem em comum a crítica de fundo epistemológico sobre o racionalismo de base eurocêntrica. Ao separar o corpo de um espírito racional, a filosofia iluminista teria consolidado e legitimado todo o processo de colonização e de exploração sem limites do mundo material, incluído o ser humano. Sob a legitimidade de levar a verdade, primeiro de uma religião e depois de uma racionalidade pretensamente universal, todo tipo de atrocidade fora praticada para a posse dos corpos e das terras, objetificados na Colonização da América. Para os teóricos latino-americanos seria necessário localizar o recorte histórico-geográfico dessa racionalidade supostamente universal: primeiro a Europa e na sequência, os Estados Unidos”. (Aravecchia-Botas, 2018).

“Simultaneamente a esse percurso das Ciências Sociais, no âmbito do campo disciplinar da Arquitetura e do Urbanismo também houve iniciativas por formulações próprias na América Latina. Entre os anos de 1960 e 1980, esse esforço deu-se mais na construção de uma história da arquitetura latino-americanas (…)” (Aravecchia-Botas, 2018).

“(…) a contribuição de Marina Waismann na década de 1980, que parece mais se aproximar do pensamento decolonial. À medida que propôs mobilizar recursos metodológicos que colocavam diretamente a questão do “ponto de vista”, da enunciação do lugar do pensador, trouxe uma reflexão mais aprofundada sobre a herança epistemológica europeia do campo disciplinar da arquitetura e do urbanismo. Em seu trabalho, “O interior da história”, apareceu então uma espécie de chamado à consciência, para que o historiador e intelectual latino-americano evitasse assumir discursos que tenderiam a reproduzir hierarquias já consolidadas.” (Aravecchia-Botas, 2018).

Nilce Aravecchia-Botas, provavelmente, se refere à frase: “…mirar a lo propio con ojos propios” de Marina Waisman.

“As aproximações entre as formulações do pensamento decolonial e a crítica de arquitetura latino-americana, podem ser construídas antevendo não uma relação deliberada, mas um sentido de época, quando o pensamento pós-colonial é confrontado em função de uma herança intelectual própria desse continente. Ao mesmo tempo, entende-se que a crítica decolonial e sua chamada à necessidade de uma ruptura epistemológica, que tenha em vista sempre a dimensão eurocêntrica de nossa herança intelectual, pode auxiliar na direção da formulação de novos conteúdos e de caminhos pedagógicos que renovem o ensino de história da arquitetura. A expectativa é que a pesquisa, a história e o projeto de arquitetura, essa entendida enquanto corpo material, depositário de energias humanas as mais diversas, podem fundar práticas libertárias de descolonização dos corpos e dos territórios desde a América Latina.” (Aravecchia-Botas, 2018).

A comunicação de Fernando Diniz também indica Marina Waisman e desta vez uma referência que já consta da nossa pesquisa: Arturo Escobar. Ele diz:

“Estudar o ambiente construído das Américas é lidar com uma contradição inerente. Enquanto nossas disciplinas de arquitetura, história urbana, paisagem e planejamento urbano compartilham a crença fundamental de que os espaços importam, uma esmagadora maioria do nosso conhecimento vem de outro continente. Se os espaços das Américas são diferentes dos espaços europeus, não deveria haver uma teoria americana do espaço?”.

Fernando Diniz diz: “Teorizar nosso próprio espaço e escrever nossa própria história é urgente”.

“Neste momento, a história trágica dos espaços americanos me leva a problematizar o conceito de modernização de Junger Habermas como um processo transformador empoderador. Em arquitetura ainda estamos muito encantados com a ideia mesma de modernização e precisamos urgentemente ler os trabalhos do antropólogo colombiano Arturo Escobar. Escobar dedicou sua vida a mostrar que a modernização tem um lado sombrio chamado colonização – a ideia de que os modos de vida de uma população são melhores e, portanto, devem ser impostos a outras populações. A contribuição de Escobar para o século XXI é o entendimento da modernização e da colonização como faces de uma mesma moeda. Fomos treinados para abominar a colonização e para adorar a modernização. Quando entendemos que são duas faces do mesmo processo, (…).”

“Cabe perceber que esta modernização desigual foi testada primeiramente nas Américas, como nos lembra Roberto Fernandez, o Laboratório Americano, e só foi possível porque as histórias foram apagadas, as barreiras simbólicas foram levantadas e as exclusões foram naturalizadas. Para superar séculos de eurocentrismo será necessário um tremendo esforço, mas temos tal responsabilidade: olhar para o ambiente construído das Américas com nossas próprias lentes. E, ao fazê-lo, talvez possamos conceber uma contribuição para um conjunto de relações espaciais realmente transformador para o sul global.”

Referências

AL ASSAL, Marianna Boghosian. Entre história e projeto: América Latina como horizonte de pesquisa. Simpósio Temático (Eixo 2). Anais V Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Arquitetura e Urbanismo no Brasil atual: crises, impasses e desafios. ENAMPUR V, Salvador, 2018. pp. 4688-4690

ARAVECCHIA-BOTAS, Nilce. O pensamento decolonial: caminhos para o ensino de história da arquitetura na América Latina. AL ASSAL, Marianna Boghosian. Entre história e projeto: América Latina como horizonte de pesquisa. Simpósio Temático (Eixo 2). Anais V Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Arquitetura e Urbanismo no Brasil atual: crises, impasses e desafios. ENAMPUR V, Salvador, 2018. pp. 4691-92

DINIZ, Fernando. Trabalho 04:Teorizando o espaço nas Américas. In. AL ASSAL, Marianna Boghosian. Entre história e projeto: América Latina como horizonte de pesquisa. Simpósio Temático (Eixo 2). DINIZ, Fernando. Trabalho 04:Teorizando o espaço nas Américas. In. AL ASSAL, Marianna Boghosian. Entre história e projeto: América Latina como horizonte de pesquisa. Simpósio Temático (Eixo 2). Anais V Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Arquitetura e Urbanismo no Brasil atual: crises, impasses e desafios. ENAMPUR V, Salvador, 2018. pp. 4699-4700

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