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Urbanismo Social em Medellín, Colômbia

Por Zanandra Falcão

O termo Urbanismo Social foi definido por Karl Brunner (1887-1960) e passa a ser empregado com maior intensidade na cidade de Medellín – Colômbia, a partir de 2004, em consequência da necessidade de transformar territórios ditos informais, impactados por um alto índice de violência urbana e ausência da serviços públicos. Devido às políticas públicas efetivas desenvolvidas na cidade colombiana, que integram desenvolvimento humano e desenvolvimento urbano.

Os assentamentos informais surgiram com o rápido crescimento da população urbana, formando os bairros mais pobres nas encostas da cidade. Em Medellín, esse fenômeno ocorreu principalmente devido a diversos conflitos entre o governo e os guerrilheiros das FARC, ocasionando o deslocamento de milhões de campesinos. O final do século XX e o início do século XXI demarcam o período no qual a ocorreu maior tendência de mobilidade do campo para a cidade em toda história da Colômbia. Este país se tornou um dos que possuem os centros urbanos mais densamente povoados (CORTES Y DEL CASTILLO, 1998; SARMIENTO, 1998 apud ZUQUIM, 2014). Com o crescimento populacional descontrolado, os problemas urbanos aumentaram, sobretudo, acarretando escassez e precariedade de habitações. Isso torna necessária a ação do governo para solucionar a situação.

Um pacto da sociedade civil e dos governantes em Medellín produziu um conjunto de políticas públicas, que foram pensadas para reduzir as desigualdades sociais e garantir acesso a melhorias na moradia e aos serviços públicos aos moradores dos bairros pobres.

Diante disse conjunto de políticas públicas somadas à ações e recursos para materializá-las, retoma-se o Urbanismo Social como uma aposta para a renovação da cidade, envolvendo o processo de planejamento urbano de novos territórios e da adaptação dos existentes, propondo novas funções e formas urbanas. Assim, o enfoque da política urbana e habitacional orientaram-se para um dos principais instrumentos de sua aplicação, o Projeto Urbano Integral.

O Projeto Urbano Integral – PUI ‑ é relatado como estratégia de um projeto destinado a abordar diferentes problemas urbanos, a fim de elevar a qualidade de vida dos habitantes de uma área específica, tendo sua concepção orientada e determinada pelo Urbanismo Social.

O Urbanismo Social constitui-se mediante a integração de questões sociais e culturais com obras físicas. Em seu âmbito, a arquitetura torna-se o motor do progresso dos habitantes da cidade e transforma o território sob um processo participativo. Este por sua vez, transcende a preocupação com o ordenamento territorial (desenvolvimento urbano) e a arquitetura, colocando o ser humano no centro do discurso (desenvolvimento humano), através de abordagens multidisciplinares do fenômeno urbano (EDU, 2005).

A partir desses princípios, as ações do PUI não se concentram exclusivamente no desenvolvimento de infraestrutura física, baseado na integralidade de ações, inclui um processo participativo dos habitantes, interinstitucional e da coordenação social, englobando diferentes níveis de atuação, que permitem desenvolver a renovação urbana na transformação física e social das zonas de maior marginalidade urbana, trabalhando com a base comunitária encontrada na área e aproximando o município dos habitantes.

Em suma, o urbanismo social se concentra na promoção do desenvolvimento integral humano, se constitui visando colocar a arquitetura a serviço dos habitantes, em busca do desenvolvimento para as pessoas por meio de um esquema participativo de intervenção integral. (Prefeitura de Medellín, 2007)

Assim Medellín, a segunda maior cidade em número de habitantes da Colômbia, é uma evidência que confirma a maneira pela qual o fenômeno da urbanização conseguiu mudar a realidade espacial do país.

Medellín, nos anos 1990, “chegou a apresentar os mais altos índices de homicídio do mundo, atingindo o ápice de 380 homicídios por 100 mil habitantes no ano de 1991 (para a ONU, valores acima de 10 homicídios por 100 mil habitantes já representam níveis epidêmicos de violência letal). Os números de Medellín eram altos em razão da disseminação de armas de fogo na sociedade e exacerbados pelo conflito armado entre facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas”. O “urbanismo social” foi um instrumento que explica o sucesso da Colômbia tanto em reduzir a violência como em melhorar a situação dos assentamentos ditos “informais”. Especialmente, em reduzir os índices de violência urbana, na verdade, considera-se “um caso excepcional”: “hoje, a taxa de homicídios de Medellín caiu para 20 por 100 mil.” (Em coluna, Arq. Futuro, 2019).

Referências:

CONGOTE, Laura María Sánchez; CÓRDOBA, Alejandra Ramírez; GARCÍA, Adriana Johanna Franco; GIRÓN, Erika Cruz Palacio; HERNÁNDEZ, Maryluz Correa; MUÑOZ, Juan David Peláez; RAMÍREZ, Valentina Venegas URREGO, John Edinson Garcés; VENDAÑO, Diana Patricia González. Programa Urbano Integrado-PUI-NOR. Experiência da construção da cidade de planejamento, desenvolvimento e gestão de habitação. Universidade de Antioquia. Disponível em: <http://www.favelasaopaulomedellin.fau.usp.br/wp-content/uploads/2016/02/Programa-Urbano-Integral.pdf.> Acesso em: 04 de fev. 2019

EDU – Empresa de Desenvolvimento Urbano (2005). Programa Urbano Integral Nordeste, etapa de diagnóstico e formulação. Medellín, Colômbia: Prefeitura de Medellín.

MAZO, L. M. S., MORAIS, A. C. S. Transformações contemporâneas dos bairros populares. um olhar a partir da participação e da política urbana em Medellín – Colômbia. Submetido para: II Seminário Nacional de Urbanização de Favelas. II URBFAVELAS. Rio de Janeiro (Brasil): Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: < http://www.favelasaopaulomedellin.fau.usp.br/publicacoes/> Acesso em 04 de fev. 2019.

MCGUIRK, Justin. Cidades Radicais: Uma Viagem à Arquitetura da América Latina – Medellín: Urbanismo Social. (Noema). Turner Edição do Kindle.

Prefeitura de Medellín (2007). Projeto Urbano Integral na Zona Nordeste de Medellín. Um modelo de transformação de cidade. Medellín, Colômbia: Prefeitura de Medellín.

ZUQUIM, M. L. (Org.) ; MAZO, L. M. S. (Org.). Barrios populares Medellín: favelas São Paulo. São Paulo (Brasil). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). 310 p. 2017 Disponível em: <http://www.favelasaopaulomedellin.fau.usp.br/publicacoes/&gt; Acesso em: 17 de out. 2018.

ZUQUIM, M. L. Intervenções contemporâneas em cidades da América do Sul: estudo das transformações territoriais em assentamentos precários. Brasil – Colômbia. In: III Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo. III ENANPARQ: Arquitetura, cidade e projeto: uma construção coletiva. Simpósio n. 4: Habitação e direito à cidade. São Paulo (Brasil): Universidade Presbiteriana Mackenzie e PUC Campinas. p. 195-196. 2014. Disponível em: <http://www.favelasaopaulomedellin.fau.usp.br/publicacoes/> Acesso em: 17 de dez. 2018.

ARQ. FUTURO. 3 exemplos de como o urbanismo social cria cidades mais seguras, Em coluna, Arq. Futuro conta casos de Medellín, Rio de Janeiro e Recife. Disponível em: <https://casavogue.globo.com/Arquitetura/Cidade/noticia/2019/01/3-exemplos-de-como-o-urbanismo-social-cria-cidades-mais-seguras.html&gt; acesso em 06 fev. 2019

 

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