pensamento decolonial

Tópicos sobre a descolonialidade conforme Mignolo, síntese da leitura 1

O texto base dessa abordagem inicial sobre o decolonial foi Desafios decoloniais hoje [Decolonial Challenges Today] de Walter Mignolo, publicado em 2017, pela revista Epistemologias Do Sul, da Unila. Recorreu-se a alguns capítulos, do livro The Darker Side of Western Modernity; de Aníbal Quijano foi lido Colonialidade, poder, globalização e democracia; de Catherine Walsh foi lido o artigo ¿Son posibles unas ciencias sociales/ culturales otras? Reflexiones en torno a las epistemologías decoloniales. Adotamos o termo decolonial, no entanto nesse seguimos o termo descolonial tal como escolhido pela tradução.

O prefixo des-, conforme o Priberam, exprime a noção de negação, separação ou cessação (ex.: descolonial). Igualmente, o de como prefixo também manifesta a noção de negação, separação ou cessação, por ex.: decodificar, demitologizar, ou decolonial, ambos vem do latim (Cf. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

A modernidade/colonialidade/ descolonialidade é uma tríade que nomeia um conjunto complexo de relações de poder (Mignolo, 2017).

“Colonialidade” equivale a uma “matriz ou padrão colonial de poder” — um complexo de relações que se esconde detrás da retórica da modernidade (o relato da salvação, progresso e felicidade) que justifica a violência da colonialidade.  E “descolonialidade é a resposta necessária tanto às falácias e ficções das promessas de progresso e desenvolvimento que a modernidade contempla, como à violência da colonialidade”. As três palavras designam esferas de dicção e de ação e são interdependentes (Mignolo, 2017).

Conforme Walsh (2007), no interior da categoria de análise da colonialidade, podemos distinguir quatro esferas que se articulam entre si: colonialidade do poder; colonialidade do saber, colonialidade do ser e colonialidade da natureza. Ela inclui uma a mais ao esquema dos eixos da colonialidade habituais: colonialidade territorial do poder; do saber e do ser.

Para Quijano (2002) articula às categorias conhecidas: capitalismo, Estado-nação, eurocentrismo e racismo. Explicita que:

“O atual padrão de poder mundial consiste na articulação entre: 1) a colonialidade do poder, isto é, a ideia de “raça” como fundamento do padrão universal de classificação social básica e de dominação social; 2) o capitalismo, como padrão universal de exploração social; 3) o Estado como forma central universal de controle da autoridade coletiva e o moderno Estado-nação como sua variante hegemônica; 4) o eurocentrismo como forma hegemônica de controle da subjetividade/intersubjetividade, em particular no modo de produzir conhecimento.”

Mignolo (2017) situa o ponto de origem do conceito (Des)colonialidades no Terceiro Mundo. “As bases históricas da descolonialidade se encontram na Conferência de Bandung de 1955, na qual se reuniram 29 países da Ásia e da África”. Mais adiante, na conferência dos Países Não Alinhados, Belgrado, 1961, vários estados latino-americanos somaram suas forças aos asiáticos e africanos.

Conforme Mignolo (2017), o principal objetivo da conferência de Badung: encontrar as bases e a visão comum de um futuro alternativo ao capitalismo e ao comunismo. O caminho que encontraram foi a “descolonização”.Tratava-se de desprender-se das principais macronarrativas ocidentais.  A descolonialidade não consiste em um novo universal apresentado como o verdadeiro, superando todos os previamente existentes; trata-se antes de outra opção.

A formação e as transformações do “padrão colonial de poder” (Mignolo, 2011). Primeiro a teologia foi substituída pela filosofia e pelas ciências seculares. Em seguida, a geopolítica e política do corpo (entendida como a configuração biográfica de gênero, religião, classe, etnia e linguagem), tal configuração de conhecimento e desejos epistêmicos foram ‘camuflados’ e o acento colocado na mente em relação a Deus e em relação à própria Razão. Assim a enunciação da epistemologia ocidental foi configurada, e assim foi a estrutura da enunciação que uniu a matriz colonial. E designou-se a “modernidade” como a casa da epistemologia, Walter Mignolo (2011).

Tais autores enxergam a consolidação do projeto moderno como uma racionalidade universal/ eurocentrismo. Especificamente Colonialidade do poder (Quijano), e epistemologias de fronteira (Mignolo).

“A modernidade é indispensável. Mais ainda, urgente. Mas é duvidoso que o caminho consista na simples negação de todas as suas categorias; na dissolução da realidade no discurso; na pura negação da ideia e da perspectiva da totalidade do conhecimento. Longe disso, é necessário destacar-se dos elos da racionalidade-modernidade com a colonialidade, em primeiro lugar e, em última análise, com todo o poder não constituído na livre decisão das pessoas livres. É a instrumentalização da razão pelo poder colonial, em primeiro lugar, que produziu paradigmas distorcidos de conhecimento e prejudicou as promessas libertadoras da modernidade. A alternativa é, portanto, clara: a destruição da colonialidade do poder mundial. (Quijano, 2002).

Minholo (2017) demarca que faz 58 anos (em 2019) que os princípios da descolonialidade foram colocados. E que no espírito de Bandung, o intelectual Aymará Simón Yampara esclarece que o descolonial não é nem capitalista nem comunista. Ele diz que eles promovem o pensamento descolonial e o fazer comunal. Destaca a origem do descolonial no Terceiro Mundo ‑ diversidade de histórias e de tempos locais.

O pensamento fronteiriço, proposto por Mignolo (2017), é a singularidade epistêmica de qualquer projeto descolonial. Por quê? Porque a epistemologia fronteiriça é a epistemologia do anthropos que não quer se submeter à humanitas, ainda que ao mesmo tempo não possa evitá-la.

Então explica como anthropos é designado pelo humanitas. Este se estabelece mediante a “epistemologia territorial e imperial baseada nas políticas de conhecimento teológicas (Renascimento) e egológicas (Ilustração).” Conforme o descolonialismo, as políticas teo- y ego-lógicas do conhecimento se basearam na supressão tanto da sensibilidade como da localização geo-histórica do corpo. Foi precisamente essa supressão o que tornou possível que a teo-política e a geopolítica do conhecimento fossem proclamadas universais. A humanitas se pretende universal.

O racismo moderno/colonial, ou seja, a lógica da racialização que surgiu no século XVI ‑ na Europa, vivia-se no relato da modernidade com seus esplendores e misérias – Esta lógica tem duas dimensões (ontológica e epistêmica) e um só propósito: classificar como inferiores e alheias ao domínio do conhecimento sistemático (2017).

Quijano (2002) diz que: a “’colonialidade do poder’ é um conceito que dá conta de um dos elementos fundantes do atual padrão de poder, a classificação social básica e universal da população do planeta em torno da ideia de “raça”.  Essa ideia e a classificação social e baseada nela (ou “racista”) foram originadas há 500 anos junto com América, Europa e o capitalismo. São a mais profunda e perdurável expressão da dominação colonial e foram impostas sobre toda a população do planeta no curso da expansão do colonialismo europeu. Desde então, no atual padrão mundial de poder, impregnam todas e cada uma das áreas de existência social e constituem a mais profunda e eficaz forma de dominação social, material e intersubjetiva, e são, por isso mesmo, a base intersubjetiva mais universal de dominação política dentro do atual padrão de poder.”

Referencias:

MIGNOLO, Walter D.. Desafios decoloniais hoje [Decolonial Challenges Today]. Epistemologias Do Sul, Foz Do Iguaçu/PR, 1 (1), PP. 12-32, 2017.

MIGNOLO, Walter D.. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options (Latin america otherwise: languages, empires, nations). Duke University Press. Edição do Kindle. 2011.

MIGNOLO, Walter. De la Hermenéutica y la Semiosis Colonial al Pensar Descolonial (Spanish Edition). Editorial Abya-Yala. Edição do Kindle.

MIGNOLO, Walter D.. Desobediência epistêmica: A opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, no 34, p. 287-324, 2008

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade, Poder, Globalização e Democracia. Novos Rumos (UNESP). Ano 17, n. 37,  2002.

WALSH, Catherine. ¿Son posibles unas ciencias sociales/ culturales otras? Reflexiones en torno a las epistemologías decoloniales. Nómadas, nº 26, 2007, p. 102-113.

FLORÊNCIO, Jéssica Girão. A Geopolítica do Conhecimento e a crítica decolonial. In. A mobilização transnacional indígena na Bacia Amazônica e a promoção da justiça ambiental na região. Acesso em: https://slideplayer.com.br/slide/13644372/ acessível abr 2019

COTONHOTO, Larissy Alves. Acessível em

http://www.infoteca.inf.br/endipe/smarty/templates/arquivos_template/upload_arquivos/acervo/docs/3248b.pdf Acesso em abril de 2019

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