América Latina pensamento decolonial Tensionamento

Tópicos sobre a descolonialidade conforme Mignolo, síntese da leitura 2

Sobre a a lógica da racialização que surgiu no século XVI, Mignolo (2017), por sua vez diz, que não é qualquer um que pode inventar o anthropos. “O enunciado necessita um (agente) enunciador e uma instituição (…)”. O anthropos é imposto como “o outro” no imaginário coletivo mediante o posicionamento daquele que gerencia “o discurso (verbal ou visual) pelo qual se nomeia e se descreve uma entidade (o anthropos ou “o outro”), e consegue “fazer crer” que esta entidade existe.

Mignolo (2017), lembra que hoje “a categoria de anthropos (“o outro”) vulnera a vida de homens e mulheres de cor, gays e lésbicas, gentes e línguas do mundo não-europeu e não-estadunidense desde a China até o Oriente Médio e desde a Bolívia até Gana”.

Existe uma epistemologia territorial e imperial que inventou e estabeleceu tais categorias e classificações (o inferior, o subalterno, o viralatismo. Percebe-se que a inferioridade é uma ficção criada para dominação. Tornou-se “negro” ou “homossexual” ou “mulher” por um discurso cujas regras não pode controlar e que não deixa lugar para a queixa, como acontece com Josef K. n’O processo de Kafka (Mignolo, 2017).

  • “Pensar habitando a fronteira moderna/colonial, sendo consciente dessa situação, é a condição necessária do pensar fronteiriço descolonial.
  • “Nós, anthropos, que habitamos e pensamos nas fronteiras, estamos no caminho e em processo de desprendimento e para nos desprender precisamos ser epistemologicamente desobedientes.
  • “O pensamento fronteiriço é o nosso pensamento, do anthropos, de quem não aspira se converter em humanitas, porque foi a enunciação da humanitas o que o tornou anthropos (Mignolo, 2017).”

Mingnolo cita a conexão com a “consciência imigrante” que se localiza nas rotas de dispersão do pensamento descolonial e fronteiriço. Constiui um habitar as fronteiras que criou as condições para ligar a epistemologia fronteiriça com a consciência imigrante e, em consequência, desvinculá-la da epistemologia territorial e imperial.

A descolonialidade e o pensamento/sensibilidade/fazer fronteiriços estão, por conseguinte, estritamente interconectados. Para Mignolo (2017), a descolonialidade não pode ser nem cartesiana nem marxista; a descolonialidade emerge da experiência da colonialidade, alheia a Descartes e invisível para Marx.

A epistemologia fronteiriça e a descolonialidade seguem de mãos dadas, conforme Mignolo (2017). Por quê? Porque um dos objetivos da descolonialidade é transformar os termos da conversa e não só seu conteúdo. Como funciona a epistemologia fronteiriça? Meios: desprendimento do conteúdo e dos métodos do capitalismo e do comunismo, da teoria política ilustrada, enfim, do liberalismo e do republicanismo e da economia política, assim como de seu opositor, o social-comunismo. Mas, uma vez que nos desprendemos, para onde vamos?

Epistemologias de fronteira (Mignolo, 2017). Colocar a diferença colonial no centro da produção do conhecimento à objetivo: superar a modernidade eurocentrada; Identidade na política: populações tiveram negados seus interesses no agenciamento epistêmico dominante (Mignolo, 2008); A alternativa indicada para o giro descolonial: desobediência epistêmica a partir da emergência de conhecimentos de fronteira.

Desprender-se significa não aceitar as opções que lhe brindam. Não pode evitá-las, mas ao mesmo tempo não quer obedecer. Habita a fronteira, sente na fronteira e pensa na fronteira no processo de desprender-se e resubjetivar-se (Mignolo, 2017).

A descolonialidade não resulta da combinação das opções existentes, mas consiste em desprender-se delas. Seu limite estriba em ter-se mantido no domínio do desprendimento político e econômico. Não se colocou a questão epistêmica, no entanto, as condições para colocá-las estavam aí dadas. Daí a importância da obra de Frantz Fanon, conforme Mignolo (2017).

Muitos autores identificam o princípio de Sociogênese [sociogenia (sociogénie)] em Frantz Fanon, ele cita tal princípio no livro “Pele negra, máscaras brancas”. A Sociogênese é um conceito que permite nos desprender precisamente das regras e conteúdos do ocidentalismo epistêmico. Ao desprender-se, Fanon se compromete com a desobediência epistêmica. Não há outra maneira de saber, fazer e ser descolonialmente, senão mediante um compromisso com a desobediência epistêmica. A sociogênese já não pode ser subsumida ao paradigma (Mignolo, 2017).

A genealogia do pensamento fronteiriço, do pensar e do fazer descolonialmente, tem sido construída por várias frentes conforme Mignolo, entretanto, o descolonial partilha de alguns autores em sua matriz teórica com o projeto pós-colonial como: Franz Fanon, Albert Memmi, Aimé Césaire, Edward Said,

O conceito teórico mais radical, conforme Mignolo (2017), que Fanon introduziu é “sociogênese”. Esta incorpora tudo: desprendimento, pensamento fronteiriço e desobediência epistêmica; desprendimento das opções filogenéticas e ontogenéticas, da dicotomia do pensamento territorial moderno.

A sociogênese é um conceito que não se baseia na lógica da de-notação (ao contrário da filo e da ontogênese), mas na lógica da enunciação e da classificação que tem o privilégio de classificar e, assim, decretar o racismo epistêmico (seres menos racionais) e ontológico (seres humanamente inferiores): é ontologicamente inferior. (Mignolo, 2017).

A explicação do termo se dá em comparação aos princípios de compreensão do desenvolvimento humano: filogênese e ontogênese. Na filogênese o entendimento direciona-se para a origem da espécie; na sociogênese, a ênfase recai sobre a sociedade; na ontogênese compreende-se desde o desenvolvimento na origem do homem (Larissy Alves Cotonhoto).

Voltando, ao assunto, Mignolo (2017) adverte que ao colocar em interrogação a enunciação (quando? por quê? Onde? para quê?) nos dota do conhecimento necessário para criar e transformar, e que isso parece necessário para imaginar e construir futuros globais. Para ele tal procedimento constitui o coração de qualquer investigação descolonial. Por quê? Porque o conhecimento é criado e é transformado de acordo com desejos e necessidades particulares assim como em resposta a exigências institucionais.

Desafios da perspectiva decolonial, conforme Jéssica Girão Florêncio:  o exercício da interseccionalidade: colonialidade do poder sobre as relações raciais, étnicas, sexuais, epistêmicas, econômicas e de gênero (no nível acadêmico); as questões de gênero, natureza e étnico-raciais negras; os enunciadores dessas discussões e os locais que ocupam à práxis movimentos sociais. Jéssica Girão Florêncio

Referencias:

MIGNOLO, Walter D.. Desafios decoloniais hoje [Decolonial Challenges Today]. Epistemologias Do Sul, Foz Do Iguaçu/PR, 1 (1), PP. 12-32, 2017.

MIGNOLO, Walter D.. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options (Latin america otherwise: languages, empires, nations). Duke University Press. Edição do Kindle. 2011.

MIGNOLO, Walter. De la Hermenéutica y la Semiosis Colonial al Pensar Descolonial (Spanish Edition). Editorial Abya-Yala. Edição do Kindle.

MIGNOLO, Walter D.. Desobediência epistêmica: A opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, no 34, p. 287-324, 2008

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade, Poder, Globalização e Democracia. Novos Rumos (UNESP). Ano 17, n. 37,  2002.

WALSH, Catherine. ¿Son posibles unas ciencias sociales/ culturales otras? Reflexiones en torno a las epistemologías decoloniales. Nómadas, nº 26, 2007, p. 102-113.

FLORÊNCIO, Jéssica Girão. A Geopolítica do Conhecimento e a crítica decolonial. In. A mobilização transnacional indígena na Bacia Amazônica e a promoção da justiça ambiental na região. Acesso em: https://slideplayer.com.br/slide/13644372/ acessível abr 2019

COTONHOTO, Larissy Alves. Acessível em 

http://www.infoteca.inf.br/endipe/smarty/templates/arquivos_template/upload_arquivos/acervo/docs/3248b.pdf Acesso em abril de 2019

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